Andreatta Broker
Mercado

Clubes privados no campo: o que a Knight Frank vê e o Brasil já tem

O Residence Report 2026/27 mostra clubes de membros e marcas de hotel puxando o mercado rural na Inglaterra. Lemos o movimento a partir de Porto Feliz, Itu e Itupeva.

David AndreattaDavid Andreatta|03 de novembro de 2026|5 min
Clubes privados no campo: o que a Knight Frank vê e o Brasil já tem

Há uma mudança silenciosa no mercado de luxo lá fora, e ela fala diretamente com o interior paulista. Os clubes privados de membros, que nasceram nas grandes cidades, estão se mudando para o campo. Levam junto hotel, spa, restaurante e, cada vez mais, casas com assinatura de marca. É o tema de um dos capítulos do Residence Report 2026/27 da Knight Frank, publicado em setembro, e que acompanhamos com interesse porque descreve, em inglês, algo que a Fazenda Boa Vista, os Terras de São José e a Fazenda da Grama fazem há anos.

O que a Knight Frank mediu

O caso central do relatório é o dos Cotswolds, região rural a duas horas de Londres onde se instalaram o Soho Farmhouse, o Estelle Manor e o clube da Bamford. Segundo a consultoria, a demanda por imóveis a até quinze minutos de carro do Soho Farmhouse é mais que o dobro da demanda nas áreas vizinhas: 2,3 compradores registrados para cada comprador no entorno. O perfil também muda. Na região dos Cotswolds como um todo, cerca de 12% dos compradores são estrangeiros; perto do clube, esse número sobe para 26%.

O relatório cita ainda o Nobu, que se associou ao clube Woolfox, em Rutland, para construir clube, hotel e residências de marca no mesmo terreno, e o Long Lane, em West Sussex, que promete programas de saúde personalizados e proíbe álcool. A leitura da Knight Frank é que o clube deixou de ser um complemento do empreendimento e virou o motor de demanda e de preço em destinos de estilo de vida.

Em outro capítulo do mesmo relatório, o "Wider horizons", a consultoria mostra que a diferença de preço entre as grandes cidades e os destinos de estilo de vida está diminuindo. O topo de Marbella, segundo a Knight Frank, já equivale a Madri. E o patrimônio imobiliário médio das famílias com mais de US$ 30 milhões subiu de 2,9 para 3,8 imóveis em menos de dez anos, segundo o Wealth Report 2026 da mesma casa. Casa de campo deixou de ser a segunda casa. Em muitas famílias, é a terceira ou a quarta.

O Brasil fez isso antes de ter nome

O que a Knight Frank descreve como tendência nova é, no interior de São Paulo, um modelo com quase duas décadas. A Fazenda Boa Vista, em Porto Feliz, nasceu em torno de um hotel Fasano, de dois campos de golfe e de um centro hípico. O condomínio é, na prática, um clube privado com casas em volta, exatamente a fórmula que o relatório aponta como o futuro do mercado rural europeu.

Os Terras de São José, em Itu, seguem a mesma lógica com outro tempero: golfe, hípica, clube social e uma comunidade que se formou ao longo de mais de trinta anos, a ponto de o primeiro condomínio ter gerado o segundo e o terceiro. A Fazenda da Grama, em Itupeva, organizou tudo em volta do campo de golfe e do clube. Em todos eles, o que sustenta a casa não é só o terreno, é o acesso ao que acontece dentro da portaria.

A diferença em relação aos Cotswolds é de escala e de origem. Lá, o clube chega a uma região já ocupada e reprecifica o entorno. Aqui, o clube e o condomínio nasceram juntos, dentro do mesmo muro, com a mesma incorporadora. Isso explica por que a Knight Frank vê compradores estrangeiros dobrando de participação perto do Soho Farmhouse, enquanto nos condomínios paulistas o comprador segue sendo, em boa parte, a família de São Paulo que já tem apartamento na cidade e casa na praia.

A marca chega também à cidade

O outro movimento do relatório é o das residências de marca. A pesquisa global da Knight Frank contou 903 projetos de branded residences no fim de 2025, contra 354 em 2015, e projeta cerca de 1.088 até o fim de 2026. Mais da metade deles, segundo a consultoria, já fica fora das grandes cidades, em destinos de praia, ilha ou montanha. Em 2016, eram menos de quatro em cada dez.

São Paulo não está fora disso. Segundo o Metro Quadrado, com dados da CBRE, a cidade ocupa a quinta posição no mundo em número de projetos assinados por marcas, com 25 empreendimentos entregues ou em lançamento, atrás de Dubai, do sul da Flórida, de Nova York e de Phuket. Dois terços deles levam marca de hotelaria, caso de Fasano e Rosewood, porque o comprador quer concierge, limpeza e gestão do imóvel. A CBRE, na mesma reportagem, lembra que a marca custa: os royalties e a manutenção da identidade visual entram no preço do metro quadrado.

O que isso muda para quem compra ou vende

Para o comprador, a primeira consequência é de critério. Quando o valor da casa depende do clube, avaliar a casa é avaliar o clube: a saúde financeira da associação, a taxa de condomínio e o que ela cobre, a fila de acesso ao golfe ou à hípica, a regra para convidados e locação, o plano de obras. É um dossiê diferente do de um apartamento na cidade, e é o que montamos antes de qualquer visita em uma compra sob representação, como explicamos na página do Buying Agent.

A segunda consequência é de comparação. O relatório da Knight Frank oferece uma régua: perto de um clube forte, a demanda dobra e o comprador vem de mais longe. Vale testar essa régua em cada condomínio paulista, com dados locais, antes de aceitar o preço pedido. Um lote a cinco minutos do clube e outro a quinze, dentro do mesmo condomínio, não valem a mesma coisa, e a diferença raramente aparece no anúncio.

Para o proprietário que pensa em vender, a lição é apresentar a casa como parte de um sistema, não como metros quadrados. Projeto aprovado, histórico de manutenção e o relato do que a família usou do clube nos últimos anos contam tanto quanto a planta. É o tipo de material que organizamos na venda aberta ou reservada, conforme descrevemos em Venda Private e Off-market.

Vamos continuar lendo os relatórios internacionais com os pés no interior paulista. O que a Knight Frank chama de tendência, a Fazenda Boa Vista, os Terras de São José e a Fazenda da Grama chamam de rotina. Saber a diferença entre os dois é o que separa uma boa compra de uma compra cara.

Knight FrankResidence Reportclubes privadosbranded residencesFazenda Boa VistaTerras de São JoséFazenda da Gramamercado internacional
Compartilhar
David Andreatta
David Andreatta
Managing Partner da Andreatta Broker · CRECI 123841-F

Corretor de imóveis desde 2009, especializado em alto padrão no campo e no litoral de São Paulo. Representa compradores desde 2013 e mora dentro do condomínio onde mais vende. Ver o perfil completo.

Leia também
Buying Agent

Não está aqui? Encomende.

O que você procura pode não estar anunciado. Descreva a casa; nós vamos ao mercado encontrar e apresentamos só o que vale a pena.